Kundalini: Como funciona a energia da vida em nosso corpo.

Kundalini: Como funciona a energia da vida em nosso corpo.

“A Kundalini adormecida é extremamente fina, como a fibra da haste do lótus. Ela é a desnorteadora do mundo, gentilmente cobrindo a “entrada” para o Grande Eixo. Como a espiral de uma concha, sua forma de cobra brilhante é enroscada três vezes e meia; seu brilho é como um forte facho de luz; seu doce murmúrio é como o zumbido indistinto de enxames de abelhas loucas de amor. Ela mantém todos os seres deste mundo por meio da inspiração e expiração, e brilha na cavidade da região sexual.” (Satchakranirupana)

Shiva e Shakti

Tudo é energia, diz a ciência. Tudo é um mar de energia Kundalini, diz o Tantra.

Kundalini é a energia primordial que rege a vida e o Universo, é chamada também de Kundalini Shakti por ser a energia primordial da manifestação de todas as coisas.

O hinduísmo tem várias deidades, porém as duas principais são Shiva e Shakti. Ao contrário das religiões majoritárias contemporâneas, que personificam seus santos e deuses, as divindades hindus tem um significado mais metafórico. São personificações das manifestações da natureza e das emoções e fases da vida humana.

Shiva é a personificação do masculino que reside em cada um de nós. Da consciência universal. É o que rege e da ordem a todas as coisas.

Shakti é a manifestação dessa consciência, a personificação do feminino, é a natureza, são nossas ações, emoções e sensações. Shiva sem Shakti seria o vazio, pois uma consciência sem ser manifestada não é nada. Shakti sem Shiva seria um cadáver, porque um corpo sem consciência é um corpo sem vida.

Cada Deus hindu (Shiva) tem sua respectiva representação feminina (Shakti). Por exemplo: Brahma é o Deus da criação, que determinou o princípio do Universo e sua parceira, a energia complementar feminina, é Saraswati, a mãe dos Vedas (ensinamentos práticos para uma vida plena), a personificação da própria Natureza e a criadora das Artes e Ciências, da qual a maior arte é o Amor. Ou seja, em todo o universo (dentro e fora de nós), simplificando, Shiva cria, Shakti manifesta.

Nós carregamos em nosso interior a manifestação da energia macrocósmica universao de forma microcósmica. Todos nós somos constituídos de água e minerais, assim como nos nutrimos de ar e geramos calor, ou seja, de todos os elementos da natureza. Assim como possuímos o masculino e o feminino. O pleno equilíbrio e união dessas forças é o que nos faz alcançar um modo pleno de viver. E a Kundalini é essa energia vital, a energia que manifesta nossos desejos, vontades, a energia que rege todas as manifestações do universo macrocósmico dentro de nosso corpo. 

O que o Tantra chama de Kundalini Freud um dia chamou, em seus estudos sobre a psicanálise, de “libido” e Reich, em sua psicanálise corporal, de “Orgone”. O cristianismo denomina a energia vital como sendo a energia do “Espírito-Santo”. 

A Kundalini  e sua ascensão para a iluminação se manifesta em todas as filosofias e religiões, assim como nas teorias contemporâneas da psicologia e bioenergética. 

Naquele tempo, os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’ ou ‘Está ali’, porque o Reino de Deus está entre vós”. (Lucas 17:20-25)

Como a Kundalini se manifesta?

 

Kundalini, a que tem energia em forma de kundala, que significa “espiral”, é a energia sustentadora da vida, a força vital contida em todos os seres, o poder que dá vida ao universo.

Kunda, significa “lago” e a Kundalini do planeta é o lago em que se fundiram todos os elementos da Terra. Esta energia pulsa numa frequência regular e ocasionalmente se enfurece na força de terremotos e erupções.

Assim como a energia do planeta pulsa, se expandindo e se contraindo constantemente, a energia de cada ser vivo pulsa da mesma maneira. Temos momentos de extroversão e outros de introspecção. Estamos momentos relaxados e outrora tensos. Nossos orgãos funcionam na base de expansão e contração, seja o coração regulando seus batimentos ou o intestino empurrando os alimentos. O próprio orgasmo se manifesta através do pulsar contínuo da musculatura pélvica.

O símbolo da medicina contemporânea são duas cobras enroscadas (Ida e Pingala) em um cedro (Sushumna), e onde suas cabeças se encontram, após 7 voltas (chakra), acontece a cura (Ascensão da kundalini).

Essa energia está adormecida em todos na base da espinha dorsal e, para que se tenha uma vida consciente e prazerosa é necessário que essa energia seja ativada, reconhecida e elevada até o alto da cabeça.

Ele é comparado a (e muitas vezes ilustrado como) uma perigosa cobra enrolada três vezes e meia, e como tal, quando liberada, pode agir de forma criativa ou destrutiva, positiva ou negativamente.

Perigos do despertar inconsciente da Kundalini

Muito se fala sobre o despertar da Kundalini e a maioria das pessoas expressa uma falta de conhecimento ou até interpretam certas reações energéticas do corpo como a subida da energia, mas estão enganados.

A Kundalini é a energia da vida e qualquer expressão de nossas vontades pode ser encarada como uma manifestação dessa energia. O orgasmo é uma manifestação de Kundalini, dançar, sair com os amigos, conversar, namorar, dar risada, trabalhar ou fazer aquela viagem dos sonhos…tudo isso são manifestações da energia da vida. É nosso ‘fogo interno”, o poder do sexo, da criação, dos desejos e das vontades.

Como falamos a Kundalini fica armazenada na nossa região sexual, enrolada e descansando. Naturalmente temos 3 nós energéticos (chamados de bandhas) que impedem que ela suba indiscriminadamente. Esses nós podem ser dissolvidos e a energia canalizada de maneira consciente através de um trabalho de bem-estar físico: através de alimentação, exercícios e equilíbrio mental que devem ser desenvolvidos antes de permitir que a elevação se transforme numa experiência espiritual. Os iogues em geral passam muitos anos se trabalhando para tal ascensão.

Quando a Kundalini sobe ela percorre nossos canais energéticos, como as Nadis e o Sushumna (para saber mais sobre esses canais por ler o artigo sobre Chakras), assim como os meridianos, vasos, veias, nervos e músculos por todo nosso corpo, por isso a importância de uma preparação e limpeza psicofísica.

Então não posso elevar a Kundalini através de uma massagem tântrica ou meditação ativa?

 O Tantra no ocidente é tradicionalmente muito vinculado a sexualidade e a maioria dos profissionais se limitam a vincular a capacidade de alcançar o sétimo chakra com o estado de hiperconsciência orgástica ou com rituais (muitas vezes incompletos) de Maithuna (comumente chamado de “Sexo Tântrico”). A energia orgástica é sim uma potente manifestação da energia da vida, porém não é a única maneira de se alcançar a iluminação.

Na verdade existem várias ocasiões em que a Kundalini pode se manifestar, a relação sexual consciente é só uma delas. (veja bem, estou falando de sexo consciente. A relação sexual violenta, com movimentos rápidos e sem conexão energética real com o(a) parceiro(a) – que é como a maioria está acostumada e ver e praticar o sexo –  não só não vai influenciar na subida da Kundalini, como vai duplicar o esforço necessário para alcançar a mesma).

Principais canais energéticos do corpo segundo o Tantra.

Segundo as escrituras do Gheranda Samhia “Enquanto a Kundalini permanece adormecida, a alma individual (jiva) é limitada e o verdadeiro conhecimento não aparece.” O mesmo texto continua falando como a Hatha Ioga, a retenção da respiração, a visualização, os mantras e certos movimentos podem, juntos, despertar e controlar a Kundalini.

“Pense no seu corpo como um receptáculo de energia cósmica, um aglomerado de átomos conscientes, construídos a imagem do macrocosmo. A consciência vibra em cada uma das células, o prana está presente em todos os seus tecidos. Quando corpo e mente se unem, a consciência do corpo sutil começa a revelar-se.” (Pedro Kupfer)

Outras práticas como exercícios físicos, danças, certos sons de poder ou até drogas ou choques repentinos podem despertar a Kundalini, entretanto nesses casos o perigo de que essa energia ascenda fora de controle e crie problemas psicofísicos é extremamente alta. A maneira mais segura de canalizar a energia Kundalini é através de um compromisso profundo de amor e consciência transcendentais.

As sensações que a massagem Tântrica traz são sim manifestações da energia Kundalini, porém em sua grande maioria passa longe da experiência de iluminação e dissolução do ego causada pelo poder da serpente desenrolando pelo Sushumna. É como se a Kundalini fosse o sol, porém o que você consegue alcançar são somente o calor dos raios que ele emana.

E qual é então, a sensação da ascensão da energia Kundalini? 

Segundo o livro “Segredos Sexuais”: “A experiência é geralmente sentida como um “fogo líquido” simultaneamente quente e frio, elétrico, quase paralisante, abrindo todo o ser, queimando todo o ego, soltando todas as sombras para a superfície, iluminando e liberando.”

Caso seja liberta de maneira não consciente pode ser devastadora, te fazendo se deparar com seus maiores medos inconscientes e gerando problemas físicos e psíquicos que podem levar meses para serem equilibrados novamente.

A energia Kundalini é muito poderosa e, caso você tenha como objetivo manifestá-la deve fazê-la devagar, trabalhando a ascensão em cada chakra, conhecendo suas sombras mais profundas, sua consciências corporal e correta atitude mental, assim poderá canalizá-la para uma experiência positiva.

A Kundalini é a energia do desejo, e os mesmo continuam infinitamente durante nossa vida. Assim como a cobra pode ser linda mas ao mesmo tempo fatal os nossos desejos podem nos levar tanto a iluminação quanto ao vício. Segundo Buda, se formos escravos desses desejos nunca teremos a vida plena.

“O Yoga vê o homem como um reflexo do macrocosmo. A energia criadora que engendra o Universo manifesta-se no homem, que não é separado nem é diferente dela. O nome dessa energia é kundalini. A nossa consciência individual é apenas uma das suas dimensões, pois energia e consciência não são coisas separadas. A ciência concorda com o Yoga em que o Universo é um verdadeiro mar de energia. Eles diferem, entretanto, quanto ao significado dessa constatação. O Yoga diz que ela possui implicações pessoais profundas. Se a matéria é de fato vibração, então o corpo humano, que faz parte do mundo material, também é feito de energia. Consciência e energia estão intimamente ligadas, sendo dois aspectos da mesma realidade. “ (Pedro Kupfer)

Freud escreveu que, caso não consigamos controlar nossa libido e não soubermos lidar com negativas ou a não satisfação desses desejos criamos assim, a maior parte de nossas neuroses. É exatamente o que a filosofia tântrica prega, caso não soubermos canalizar nossa energia sexual (kundalini) conscientemente em cada chakra criamos nossas próprias limitações.

 Por exemplo, pessoas que tem a libido ou a maior parte da kundalini no primeiro chakra são, no geral, pessoas incapazes de amar, ficam muito doentes e se envolvem em drogas/álcool/cigarro/remédios. São pessoas só pensam em sexo, dinheiro, poder, esportes, drogas. Quanto mais você conseguir elevar sua energia vital perante os chakras mais evoluído irá ser sua forma de pensar para com o mundo.

 A iluminação, na palavra de quem já teve essa experiência, não é nada de especial. É quando você se dá conta que todos os seres são iluminados por trás da ganância, da avareza, do ego…e você se sente não mais como um indivíduo, mas parte do todo.

E com a mesma rapidez que essa percepção vem ela volta, a cobra volta a se enroscar deixando para você a responsabilidade de lidar com as consequências físicas e psíquicas dessa iluminação: Vômito, dor no corpo, dor de cabeça, diarréia. Assim como podem ocorrer confusões mentais sobre sua própria identidade como indivíduo, desapego total dos bens materiais, etc…

Como falamos existem várias maneiras de se trabalhar a energia vital. Seja melhorando sua consciência corporal através de exercícios, dança, Ioga, artes marciais, etc ou seu equilíbrio mental com respirações conscientes, meditações entre outras atividades. A Ascensão da Kundalini de maneira consciente envolve o desenvolvimento e prática corporal, mental e espiritual.

Sempre que você se sentir mais vivo, feliz e realizado lembre-se que em todos esses momentos a Kundalini também está se manifestando dentro de você.

Como lidar com a energia sexual em época de quarentena.

Como lidar com a energia sexual em época de quarentena.

 Com a crise recente do coronavírus e uma necessidade inédita de ficarmos de quarentena longe do contato físico surgem reações do nosso corpo que se intensificam a cada dia que passa.

Picos de ansiedade, carência, libido alta e irritabilidade são só alguns dos sintomas mais comuns que temos experimentado nas últimas semanas. E, para o Tantra, tem uma causa central: O acúmulo e desequilíbrio da nossa energia sexual.

Como falei no artigo sobre o Tantra, nossa energia sexual não é somente a energia direcionada para o sexo em si, mas a nossa energia vital, a mais potente de todas, a única capaz de gerar outra vida. É a energia que nos faz acordar todo dia, que nos faz ter vontade de trabalhar, dançar, abraçar e convidar os amigos para um jantar ou um happy-hour.

Então não é só a falta de sexo que causa um distúrbio no equilíbrio dessa energia (até porque muitos casais devem estar sentindo o mesmo. Na China o número de pedidos de divórcio explodiu no último mês. Aqui no Brasil infelizmente temos preocupação com o aumento dos números de violência doméstica) mas também a falta das relações interpessoais no geral, falta do uso da energia criativa e falta de exercícios físico podem aumentar os sintomas.

Mas muitas vezes estamos tão desequilibrados que simplesmente não conseguimos focar ou ter força de vontade para meditar, respirar conscientemente ou qualquer outro exercício que exija concentração. Então o que mais podemos fazer, segundo o Tantra e o Taoísmo, para ajudar a equilibrar nossa energia?

 

Auto-Análise

“Conhecer outros conduz à sabedoria; conhecer o eu conduz a iluminação.”

(Tao Te Ching. Texto filosófico chinês do séc. XI A.C)

A auto análise é o pré-requisito básico para qualquer prática de meditação. Observando-nos sob uma ótica clara e sem julgamentos podemos identificar, aceitar e compreender toda nossa negatividade e tirar nossas dúvidas. Muitos monges se recolhem afim de se analisarem e o momento de quarentena parece ser ideal para isso. Com as emoções mais afloradas fica muito mais fácil identificá-las e trabalhá-las.

Tente visualizar todas suas experiências com o mundo ao seu redor, sejam pessoas, ou ambientes; seja trabalho, faculdade, relacionamentos, etc… Perceba os mínimos detalhes e cultive uma atitude crítica, porém passiva.

Examine tudo que lhe vier a mente e tente entender as causas que criam cada situação assim como suas ações relacionadas a elas.

Um procedimento simples para auto-análise é sentar-se confortavelmente a frente de um espelho, fechar os olhos e esvaziar a mente de todos os pensamentos. Então gradualmente comece a abrir os olhos, olhando para seu reflexo como se encontrasse aquela pessoa pela primeira vez. Observe que tipo de impressão você causa a você mesmo(a). Note como as mudanças em sua expressão estão ligadas a cada tipo de emoção e pensamento. Aos poucos se conecte com a imagem no espelho a medida que vai relaxando o rosto e tomando consciência de sua respiração.

Se notar qualidades negativas em sua imagem, ajuste cuidadosamente sua emoção e atitude, usando a respiração para estabilizar sua mente. Imagine que você está substituindo uma qualidade negativa por uma positiva, e tente sentir o “novo eu” como real e duradouro.

Então, aos poucos, feche os olhos e concentre-se em assimilar a experiência, imaginando abraçando todo seu ser.

Você também pode usar uma vela e focar na chama brilhante dela. Concentre todo seu pensamento nela e imagine a chama queimando todas as impurezas da sua mente. Então centralize a imagem da chama queimando dentro de você. Banhe todo o seu ser com essa luz e usa-a como foco para auto-análise.

Conhecendo-se você pode conhecer os outros. Corrigir os outros antes de corrigir a si mesmo é um erro, pois grande parte do que nos incomoda no próximo é um reflexo do que temos que trabalhar dentro de nós mesmos. A verdadeira conscientização requer coragem, disposição e uma honestidade profunda consigo mesmo, mas com prática constante você poderá rapidamente superar seus bloqueios que o impedem de crescer.

“A mente é vacilante e inquieta, difícil de vigiar e de restringir; a pessoa sábia deve acertar sua mente assim como um fabricante de flechas as faz retas.” (Dhammapada)

Arte: Hayao Miyazaki

Quebrando hábitos

“O verme dos pensamentos formadores de hábitos é auto-originado e autodestrutivo. Mate este verme e encontre o ensinamento” (Tilopa)

Nossa mente é condicionada a criar hábitos, muitas vezes tóxicos. E entramos num círculo vicioso que, sem uma auto-análise profunda, não conseguimos quebrá-la. Estar fora da rotina é uma ótima oportunidade para trabalhar e quebrar esses hábitos, e o crescimento pessoal pode ser acelerado simplesmente por essa quebra.

Quando você se encontra dizendo “não posso mudar isso…sempre fiz assim”, então é esse isso justamente o primeiro hábito a ser quebrado. A liberdade de escolha resulta justamente do domínio de nossos hábitos.

O corpo humano tem uma capacidade incrível de adaptação, mesmo quando parece preso a uma norma rígida. E qualquer ato intencional de vontade é muito mais eficaz que uma ação automatizada por um hábito.

Os hábitos mentais são muito mais difíceis de quebrar que os físicos, muitas vezes estão tão condicionados que nem percebemos, e podem inclusive herdados de nossos pais ou adquiridos por condicionamento social. Geralmente a falta de consciência de hábitos desagradáveis que replicamos geram os gatilhos para as emoções negativas e inclusive brigas com pessoas próximas quando, muitas vezes, o que é preciso para mudar é somente vontade e superação do medo de mudanças.

As 64 artes: O que podemos usar durante a quarentena?

No hinduísmo Brahma é o nome do aspecto criativo do Divino, é a personificação de toda a criatividade. Saraswati é o nome dado a energia feminina complementar a Brahma. Ela é frequentemente mencionada como a “detentora das 64 artes”, das quais a Arte do Amor é considerada a mais importante.

Sarawati e Brahma são, então, o Casal Cósmico criador, inseparáveis como Energia Criativa e Aspecto Criador. Essa dualidade é encontrada em todas as relações mundanas.

As 64 Artes são enumeradas no livro do Kama Sutra, o tratado básico sobre a Arte do Amor. Não existe um equivalente ocidental ao Kama Sutra e, talvez por esse motivo, o sexo como uma forma de arte e a energia sexual como uma forma de expressão ainda tenha muito o que amadurecer por aqui.

Para o hinduísmo as 64 artes e ciências devem ser estudadas por todos que desejam conhecer os 64 aspectos da união sexual, ou seja, esse tipo de conhecimento utiliza da mesma energia criativa/sexual que nos é acumulada em tempos de quarentena ou até pela nossa própria cultura repressora.

As artes incluem o canto, música, dança, escrita, pintura, desenho, costura, leitura, poesia, escultura, ginástica, jogos, arranjos florais, culinária, decoração, perfumaria, línguas, etiqueta, carpintaria, mágica, química, mineralogia, arquitetura, lógica, artesania, esportes e artes marciais. Todas essas atividades podem equilibrar a energia sexual e facilmente podemos aprender ou praticar algumas delas. Existiam outras artes mais condizentes com a época, mas para atualizar poderíamos acrescentar outros modos de expressão mais modernos, como a fotografia, por exemplo.

No artigo sobre Chakras descrevi algumas das atividades que podem equilibrar o corpo energeticamente. Abaixo coloco um vídeo de prática de Chi Kung ministrado por um dos meus professores de Tantra, Otávio Leal, muito eficiente para distribuição da energia pelo corpo.

Estamos em um momento complicado no planeta, mas se usarmos esse momento para nos conhecermos, quebrarmos nossos hábitos e aprendermos algo novo podemos, cada um de nós, mudar nossa percepção de mundo, e consequentemente, mudar o mundo quando tudo isso acabar.

Como lidar com a energia sexual em época de quarentena.

Vamos falar sobre sexualidade e sexo?

O site do Prazer em Sentir é sobre Tantra, mas também Sexualidade Consciente. E para tratar da sua sexualidade temos que falar abertamente sobre sexo. Por isso estou inaugurando a sessão do blog que trata de sexualidade.

 

Mas o que é Sexualidade Consciente?

Ter consciência da sua sexualidade é praticamente tudo o que se trabalha na terapia tântrica.

O conceito de sexualidade é muito amplo e o fato é: Todos nós temos nossa sexualidade desde que nascemos. Ser assexuado não tem a ver com não ter sexualidade, mas sim com não ter interesse quanto ao ato sexual.

A definição de sexualidade para a Organização Mundial da Saúde é a seguinte:

“A sexualidade faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de coito (relação sexual) e não se limita à ocorrência ou não de orgasmo. Sexualidade é muito mais que isso, é a energia que motiva a encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas, e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, portanto a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico.” (WHO TECHNICAL REPORTS SERIES, 1975)

A saúde sexual é um direito humano básico e para que seja plenamente vivenciada é necessário que cada um tenha uma relação de compreensão e aceitação ampla da sua sexualidade, ou seja, aceitação e compreensão de suas emoções, pensamentos, ações, impulsos, bloqueios e interações sociais.

Todos esses comportamentos são diretamente afetados pelo meio em que cada um vive. Sua instrução, crenças familiares e de amigos. Portanto a noção de sexualidade, ao contrário do sexo como ato, é muito individual.

 

E como ter uma Sexualidade Consciente pode influenciar na minha vida?

Pode-se entender consciência é: 

“1.sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior.

2.sentido ou percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais.”

Compreender mais a si mesmo faz com que:

– Seus medos não te paralisem. Se você tem segurança de seus sentimentos e de suas vontades ninguém pode pará-lx.

– Você controle seus impulsos e não entre em situações ou relações tóxicas. Pois só se pode controlar o que se conhece. Se você não conhece ou esconde seus desejos e emoções o máximo que vai poder fazer é reprimi-los. E toda a energia reprimida vai achar algum lugar para sair, e quando achar esse caminho é bem provável que saia de maneira caótica e desordenada.

– Adeus a relações abusivas. Tendo consciência de você mesma é muito difícil que alguém te manipule ou te faça se sentir culpada por algo que não é de sua responsabilidade.

– Seu corpo vai alçar níveis de prazer cada vez maiores. Quando você ultrapassa as repressões enraizadas em seus músculos e se explora sem medo descobre todo o seu potencial orgástico. E quando não se tem medo de se entregar ao prazer e nem de se mostrar vulnerável com certeza o sexo fica cada vez melhor.

– Seja mais espontâneo(a), mais aberto(a) e receptivo(a) as outras pessoas. Ser mais objetiva(o), direta(o) e assertiva(o) na comunicação para com amigos, parceiros, família e qualquer pessoa com quem se relacionar. Pois sabendo o que sente e o que pensa você se torna uma pessoa mais segura para se expressar.

Bom…poderia listar muitos outros aspectos aqui. Mas a pergunta que não quer calar:

Como faço para me tornar mais consciente da minha sexualidade?

Existem váááárias maneiras.

Você tem que olhar para dentro de você, lidar com suas sombras, com seus bloqueios. Vai ter que aceitá-los como parte de você, conhecê-los em seu íntimo para depois transmutá-los.

A psicoterapia tradicional é o meio mais usado. Mas a terapia corporal (onde se encaixa a Terapia Tântrica) usada como complementar resulta em processos muito mais rápidos de cura. Movimentar o corpo e ter consciência desses movimentos é um dos passos para romper bloqueios gravados em nossos corpos. Por isso vemos tantos casos de pessoas que começam aulas de dança, Yoga, artes marciais ou teatro e de repente se veem mais abertas, extrovertidas e seguras de si, sem nenhum acompanhamento psicológico.

Tudo que sentimos e vivemos acontece no nosso corpo, portanto, não é possível separar a sexualidade do corpo ou pensar no corpo sem considerar a sexualidade. Por isso, ouvimos tantas mensagens de controle do nosso corpo, “fecha a perna”, “não chora”, “tira a mão dai” etc, que tem por objetivo controlar também a nossa sexualidade e como consequência acaba nos afastando de conhecer e cuidar do nosso corpo e aumentando a nossa vulnerabilidade.

A nossa sexualidade é fluida, ela nos acompanha desde o nascimento até a morte e se modifica conforme as experiências que vivemos. Sendo assim todas as couraças que você carrega podem ser trabalhadas para serem soltas e modificadas … ou serem reforçadas através de outros eventos traumáticos.

Então, como primeiro passo, te faço um convite: Vamos falar abertamente sobre seus bloqueios, medos, culpas, sentimentos, pensamentos, desejos, prazeres e dores? Vamos falar abertamente sobre suas relações, relacionamentos e sobre como anda sua vida sexual?

A nova sessão do blog é para isso. Solte tudo que precisa ser solto e vamos conversar sobre esse complicado mundo do “ser”.

 

7 mitos sobre o Tantra para parar de acreditar AGORA!

7 mitos sobre o Tantra para parar de acreditar AGORA!

O Tantra no ocidente é cercado de mistério e admiração. Para alguns praticar o Tantra é quase o mesmo que praticar o Kama Sutra, para outros é sinônimo de libertinagem, sexo grupal ou relações poliafetivas.

Praticar o Tantra é ser naturalista na sua essência, se conhecer e enfrentar suas sombras para assim superá-las e tomar consciência do seu ser e sentir.

Ai vão 7 boatos sobre o Tantra e porque você não deve esquecê-los. Está na hora de trazer essa filosofia transformadora para sua vida.

 

Mito 01: Tantra é sobre ficar horas fazendo sexo.

A VERDADE É: O tempo da relação não define a qualidade da mesma.

Você pode usar o Tantra na sua vida sexual tendo uma transa rápida ou em uma maratona de sexo. Enquanto na maioria das relações nós somente conectamos os nossos corpos, resultando num ato mecânico, limitado e muitas vezes vazio e não prazeroso, no Tantra os casal se conecta não só em corpo, mas em mente e espírito. Estar no momento presente e atento as suas sensações e as sensações de seu parceiro é muito mais importante que o tempo que você permanece transando. Para o Tantra o sexo é uma meditação, você tem que estar de corpo e alma conectado com seu parceiro.

As práticas do Tantra ensinam como estabelecer essa conexão através de exercícios de conexão com seu corpo, respirações e práticas de conexão com o outro.

Apesar de existirem respirações que ajudam a manter a ereção e elevar a energia sexual fazendo com que o controle da ejaculação fique mais fácil o objetivo não é somente prolongar o sexo. Quando você aproveita e respeita o corpo do outro como um todo, começa a passar mais tempo gozando dos momentos de prazer ao invés de querer logo chegar ao orgasmo. O Tantra ajuda a alcançar novos patamares de prazer e novas sensações através de uma conexão mais profunda entre o casal.

Mito 02: Você precisa de um(a) parceirx para praticar o Tantra.

A VERDADE É: O Tantra não é sobre fazer sexo. Mas ter consciência de seu corpo, seu prazer e cultivar sua energia.

Praticar o Tantra é como aprender Yoga ou alguma arte marcial: Você começa por entender seu corpo praticando respirações, relaxamentos e meditação. Todas essas práticas te tornam mais confiante e te torna hábil em controlar seu corpo e sua energia sexual. Todos nós temos uma kunda, onde fica armazenada nossa energia sexual e geralmente não somos ensinados a entrar em contato com ela.

O Tantra é um caminho de auto-conhecimento. Quando você se empodera de seu corpo, derrete seus bloqueios, ultrapassa suas limitações você fica mais confiante, mais energético, com mais energia e vitalidade. Isso irradia para o meio que você vive e as pessoas começam a te sentir mais brilhante e atraente.

 

Mito 03: Tantra é só para aquele pessoal que consegue ficar horas meditando e se energizando com cristais.

A VERDADE É: Praticar o Tantra é despertar seus sentidos. E meditar é simplesmente acalmar a mente e abrir espaço para a sua essência, seja ela qual for.

Qualquer coisa que te ajude a diminuir a frequência de pensamentos é uma forma de meditação, o que por sua vez é uma forma de yoga. Existem literalmente milhares de formas de meditar, não só a tradicional pose sentada no chão de olhos fechados e em silêncio.

Correr pode ser uma forma de meditar. Assim como dançar, cantar ou praticar algum esporte. Tudo isso pode te levar a um estado meditativo, que envolve seu corpo em meio ao som, movimento e prazer.

Tantra pode te levar a isso através de centenas de técnicas de meditação dinâmica. E não, você não precisa receber um certificado de 200 horas de yoga para tal. Todos são bem-vindos.

 

Mito 04: Tantra é somente sobre alcançar orgasmos inacreditáveis.

A VERDADE É: Sim, você provavelmente terá orgasmos bem intensos, talvez inclusive múltiplos deles, mas o Tantra não é somente sobre sexo.

Para o Tantra a energia sexual é a energia mais potente do nossos corpo, porque ela é a única que pode criar outra vida. Mas ela também é a porta para a compreensão da sua própria vida e de seus sonhos.

Sim, sexo é um ato sagrado para o Tantra e pode ser o caminho para um estado meditativo e de prazer, além de uma conexão de alma com seu parceiro. Você pode sentir a iluminação que é estar conectado com todo o universo.

Mas o Tantra antes de tudo trata seu corpo, que é seu Templo sagrado, nascido de um ato igualmente sagrado. E esse Templo experiência toda a saga da sua vida. O Tantra te ajuda a abrir seu coração, permitindo sentir e aceitar sua luz e suas sombras para que você possa seguir de forma mais natural e intuitiva, livre dos medos que geralmente nos bloqueiam.

Mito 05: Tantra é uma religião, ou um culto.

A VERDADE É: O Tantra é uma filosofia pois não prega nada como “certo” ou “errado”, não detém mandamentos ou tabus e suas práticas não vão contra os princípios de nenhuma crença.

Enxergar a vida de forma naturalista, praticar yoga, cuidar do corpo, da alimentação, meditar, recitar mantras e se reconectar com você mesmo, seu corpo e seu prazer através dessas práticas não vai contra qualquer religião.

Você pode contra argumentar e dizer: Mas o Tantra prega que o sexo é natural e sagrado enquanto as religiões cristãs falam que o sexo é o pecado. Jesus nunca falou que sexo era pecado, mas sim a comunhão de duas almas e que deveria ser abençoado por seu pai. Temos que tomar cuidado em como a Igreja pode distorcer um discurso.

Apesar de existirem vertentes Tântricas que incluem idolatria a deuses hindus suas práticas do dia-a-dia não tem nenhuma ligação com eles. Recitar mantras como “Amém” ou “Shalom” surtem o mesmo efeito que “Om Nama Shivaya” quando entoados com fé.

 

Mito 06: Tantra promove o sexo casual e relações abertas ou poliafetivas.

A VERDADE É: Existe uma expressão tântrica que diz: Tudo nesse mundo pode ser um remédio ou um veneno, depende do quanto você toma e como você usa.

Algumas pessoas que se dizem “tântricas” podem usar seu conhecimento para romantizar relações que na verdade são tóxicas ou abusivas. Eles podem tentar parecer que tem algum poder mágico, que todas as pessoas que dormem com elas saem encantadas e transformadas. Que o mundo ideal é um mundo de liberdade onde todos podem fazer sexo com todos (e depois que você se envolve percebe que esse argumento só vale para o outro lado).

Essas pessoas estão completamente enganadas e tem uma falsa percepção do que é Tantra e do que a filosofia promove (ou simplesmente a distorceram para sua conveniência).

Não importa se você tem uma relação monogâmica ou não, não há nada de casual com essa prática.

O que o Tantra faz é praticamente nos partir no meio. Nos faz nos acostumarmos a nos sentirmos vulneráveis ao próximo, a querermos nos conectar de corpo e alma, a não termos medo de amar, seja uma ou mais pessoas.

O Tantra destrói aquela parte nossa que tem medo de experimentar coisas novas, ele aquece nosso coração e nos mostra o que realmente queremos. E criamos uma capacidade plena de nos comunicar de maneira segura e objetiva. Queremos o que é autêntico aos nossos desejos e aos nossos relacionamentos.

Durante esse processo podemos nos encontrar perdidos e confundir “libertação” com “estravazar”. Podemos começar a ter coragem de experimentar e expressar nossas vontades. Mas se depois de prová-las vemos que não é para nós, e está tudo bem. O importante é não se forçar a algo que não convém a você.

Para o Tantra não existe certo ou errado. Tudo pode ser permitido, desde que não exista uma relação de dominância e ego que possa fazer mal a você ou aos seus parceiros. Tantra é amor. Amor por você e pelos outros.

Portanto se você é uma pessoa monogâmica está tudo bem, se gosta de ter vários parceiros também está tudo bem. Se você gosta de ter sexo casual tudo bem ou se você prefere ter maior convivência com seus parceiros também está tudo bem. Quando você se permite, rompe suas barreiras e se conhece fica muito mais fácil descobrir o que lhe convém e mostrar sem medo isso.

 

Mito 07 – É muito espiritual.

A VERDADE É: As técnicas tântricas não são em nada estranhas, intangíveis ou místicas.

Tantra é uma filosofia prática a palpável, a milhares de anos trabalha com as manifestações físicas de suas práticas. O Tantra não trabalha com o etéreo, com o subjetivo. Tanto que muito do que já se pregava a 5 mil anos atrás hoje está sendo comprovado pelo medicina, psicologia e pela física quântica.

Freud e Jung comprovaram que a maioria das nossas neuroses tem origem sexual. A bioenergética vem comprovando como nossa energia circula e influencia em nossos estados de saúde. A ciência comprova como meditação e yoga ajuda em estados de ansiedade e estresse. A física já comprovou que tudo é feito de energia e está interligado.

O Tantra talvez seja a menos espiritual das filosofias. Uma simples sessão de Terapia Tântrica, uma aula de yoga ou de meditação já são suficientes para que qualquer pessoa se sinta diferente. E contra fatos não há argumentos.

Tantra é sobre entender que o sexo é a coisa mais natural e sagrada que podemos experenciar. Ela te ajuda a quebrar seus bloqueios quanto ao empoderamento do seu corpo e do seu prazer. Tantra é sobre unir corpo, mente e espírito. O que pode ser mais bonito que isso?

 

*Esse artigo foi baseado no artigo “7 myths about Tantra” com adaptações feitas por mim dentro do meu ponto de vista.

Mas afinal, o que é esse tal de Tantra?

Mas afinal, o que é esse tal de Tantra?

Aqui no ocidente o conceito de Tantra está intimamente ligado a sex0, orgasmos múltiplos e transcendentais. Tem muita gente divulgando e prometendo mundos e fundos (e cobrando muito para isso) mudar drásticamente sua experiência quanto ao sex0. Essa é uma visão limitada e muito superficial de uma filosofia milenar que influenciou muitas práticas espirituais pela história.

Primeiro gostaria de ressaltar que estou expondo aqui minha visão sobre o Tantra, algo que construi pelos meus estudos e vivências. E quero descrevê-lo de uma maneira simples para que todos entendam. A filosofia tântrica é algo extenso e complexo, irei focar no conceito do que é o Tantra como filosofia e não adentrar em suas divindades, história, rituais ou simbologia. Em outros posts com certeza irei abordar isso.

Mas se não tem a ver com sexualidade o que é então?

O Tantra é uma filosofia milenar (alguns estimam que tenha cerca de 8 mil anos) que tem por características básicas ser matriarcal e desrepressora. Durante todos esses milênios a filosofia foi evoluindo, se segmentando e se modificando e hoje temos Tantra de várias vertentes, muitas vezes que seguem conceitos nitidamente contraditórios. É como na tradição cristã onde temos os protestantes, os católicos, os evangélicos, os adventistas, etc… Porém, assim como no cristianismo, todas as vertentes tântricas tem esse objetivo em comum: Expandir a consciência e libertar a energia primal do ser-humano (Kundalini) através de um vasto leque de ensinamentos práticos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 Despertar da consciência através da Kundalini.

 A base do Tantra é que, através das experiências do mundo material possamos alcançar a suprema consciência e a iluminação já que a nossa realidade está intimamente ligada a outra, mais sútil e superior, que está conectada com nossa própria natureza.

Ou seja, no Tantra nosso corpo é nosso Templo Sagrado e todos já somos Budhas (iluminados) e podemos alcançar esse estado através de um estilo de vida pleno, com técnicas de saúde, vitalidade e flexibilidade.

Tantra não é sex0

A principal questão entre as pessoas que converso sobre o Tantra, sejam amigos ou clientes, é a associação direta para com o sexo.

Infelizmente muitos profissionais promovem uma visão superficial e limitada e muitas vezes irresponsável do Tantra, talvez pela fascinação que uma filosofia desrepressora e naturalista ocasiona numa sociedade de cultura repressora e conservadora. Reduzindo-o a práticas para melhorar a potência sexual, melhorar e multiplicar os orgasmos e técnicas de sedução e para manter os relacionamentos.

“ Algumas pessoas têm me procurado solicitando informações sobre “aulas de Tantra”. Como não sei exatamente o que elas entendem por Tantra, fico me perguntando como poderia ajuda-las a encontrar o que buscam, ou a evitar as armadilhas em que se arriscam a cair.

Para começar, vamos dizer o que o Tantra não é.

O Tantra não é um guru mequetrefe prometendo orgasmos múltiplos e iluminação e cobrando mundos e fundos por isso. Tantra não é uma prostituta com nome de Deusa oferecendo serviços pela internet. Não é um grupo de alienados carentes se excitando e se alisando em nome da hiperconsciência. Não é sacanagem, nem infidelidade institucionalizada. Tantra não tem nada a ver com “soltar a franga”. Tantra não é tara.” (Pedro Kupfer)

Você já deve ter visto em leituras e nas redes sociais promessas de orgasmos que duram minutos e técnicas de como melhorar sua vida sexual sendo associado ao Tantra.

No livro “Tantra: Da Sexualidade a Iluminação” Otávio Leal fala:

“No ocidente, o Tantra é procurado principalmente por seus aspectos estéticos, mágicos, sexuais e levianos. São comuns fotos de posições sexuais, massagens superficiais e manuais de sexo tântrico serem confundidos com a totalidade e a riqueza desta tradição. Na verdade, a sexualidade é somente uma parte desta filosofia de extrema profundidade, tão mal estudada e pouco praticada.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Quando se procura sobre “Tantra” no Google a maior parte das imagens remete a união sexual.

Dentro dos ensinamentos tântricos, ao contrário do que se crê, não existem quase menções ao ato sexual. Menos de 10% de todas as escrituras falam sobre isso. Existem algumas técnicas, como a retenção e reabsorção seminal (orgasmo seco) descritos nos textos da Hatha Yoga, por exemplo. Inclusive existem vertentes do tantra que pregam o celibato, que estudam a iluminação e canalização da energia sexual através da meditação. Essas técnicas influenciaram muito, por exemplo, nas práticas do Zen Budismo. O Dalai Lama, por exemplo, é um grande mestre tântrico.

Mas como que o Tantra chegou ao ponto de ter essa fama então?

Nos Estados Unidos da década de 60 surgiu um movimento chamado Neo Tantra, que foi responsável pela popularização de alguns ensinamentos tântricos, porem “adaptados” para a cultura ocidental, incentivando a visão sexual que o Tantra tem hoje. O sistema Neo-Tântrico fugiu da visão existencialista original e muitas vezes não trazem com clareza o que a filosofia oriental representa divulgando uma banalização do sexo e o incentivo a valorização do jogo da sedução nos relacionamentos.

A introdução dessa vertente é atribuída a Pierre Bernard , um ocultista e filósofo que criou uma “Ordem Tântrica” nos EUA em 1905. Pierre propagandeava, entre outras coisas, sua visão de que o sexo poderia ser utilizado como ferramenta para uma elevação espiritual.

Essa mescla de técnicas de massagens, manuais eróticos orientais como KamaSutra, Ayurveda, Yoga e arte erótica hindu, se propagou rapidamente pelo Ocidente sendo replicado e reinventado por mestres como Osho, Mantak Chia, Charles Muir, Margot Anand, Deva Nishok, etc. Essa vertente busca principalmente a melhora da experiência do ato sexual e ajudar as pessoas a terem melhores orgasmos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apesar de na sua fase mais madura pregar que a iluminação plena pode ser alcançada através da meditação Zen o Osho ficou mais famoso pela propagação dos conceitos do Neo-Tantra.

Não me oponho a esses mestres e nem as suas técnicas, que são efetivas e realmente vem de práticas milenares adaptadas a cultura ocidental. Porém reduzir a filosofia tântrica ao êxtase sexual é superficial e parcial. O Tantra não é hedonista nem orgástico, seu objetivo é o despertar do potencial pleno do homem.

A visão do sexo para o Tantra

O sexo no Tantra é visto como algo natural e sagrado. É uma dos meios, através principalmente do Maithuna (ritual sexual tântrico) de se alcançar a iluminação através da elevação da Kundalini.

Portanto, para o Tantra, não existe sexo sujo, não existe o conceito de “certo” ou “errado” e nem depravado como a nossa sociedade judaico-cristã pensa.

Nós não nascemos do pecado, muito pelo contrário, nós fomos criados através de uma das maiores demonstrações de amor e conexão que podemos ter. Nosso corpo é sagrado e foi concebido através de um ato igualmente sagrado.

Infelizmente, para nós ocidentais, essa linha de pensamento naturista para com o sexo abre muitas portas para usarmos o Tantra como argumento e reprodução dos modelos machistas de dominância, de sedução e desculpas para traições, relações abusivas, orgias, etc… isso não é Tantra.

 

 

 

O Tantra lida com o sexo como uma manifestação natural, assim como tudo na vida.

Para o tantrismo a relação sexual é um momento em que os amantes se libertam do seu ego e estão em estado de meditação. Não existe nenhuma relação de dominância, as energia se equilibram e se misturam e a consciência está no momento, nas sensações. É quando há uma relação plena de confiança e respeito, vulnerabilidade e reverência um pelo outro. Um caminho de intimidade profunda. Quando o orgasmo genital deixa de ser prioridade e a conexão dos sagrados masculino e feminino prevalece.

E nesse ponto não existe homem ou mulher, não existe sagrado ou profano. Só existe o êxtase, a consciência e a iluminação.

Quando há uma relação abusiva e possessiva. De dominância, submissão, desconfiança, sofrimento, carência, raiva ou qualquer relação em que não haja equilíbrio entre a união dos divino masculino e feminino não é Tantra.

Osho dizia: “Deixe o sexo ser uma brincadeira.”

Se há algum manual para fazer sexo, ele não vai ser uma brincadeira. No sexo sagrado você tem que deixar seu ego e seu egoísmo de lado. Esquecer da sua potência, sua ereção, suas atitudes, seu corpo e sua performance. Você tem que estar relaxado suficiente para entrar num estado de “não-mente” e não ter script a seguir. O sexo sagrado é uma dança e uma celebração natural.

As práticas tântricas que usam do intercurso sexual não constituem o cerne da filosofia tântrica e, na maioria das vezes, são interpretadas de maneira errada pelo ocidental. Elas são praticadas com mais periodicidade nas escolas de “Esquerda” ou negativa do Tantra, aonde infelizmente, muitas das práticas se tornaram verdadeiras orgias, devido ao baixo nível espiritual dos seus praticantes.

Diferença entre “Controlar” e “Reprimir”

Para o Oriente as questões sobre sexualidade já são vistas sob uma ótica naturalista. A cultura oriental milenar de maneira geral buscam o controle da sexualidade. O ocidental reprime a sua sexualidade. Há uma diferença muito grande entre reprimir e controlar. Aquele que reprime seus desejos fica com eles o tempo inteiro na cabeça e perde o domínio sobre sua mente. Aquele que os controla é senhor de si mesmo, sabe a hora de expressá-los e de conte-los.

Existe uma linha tênue entre “desrepressão” e “descarregar a repressão”. Vejo muitas pessoas, inclusive pessoas dentro do mundo do tantra, utilizando dos conceitos do neo-tantra para justificar comportamentos que simplesmente reproduzem atitudes da nossa cultura machista, repressora e patriarcal sob o manto de um discurso bonito de liberdade e “desrepressão”. As pessoas que caem nesse discurso e se dispõem a ultrapassar seus limites para experimentar algo sem que seja plenamente de sua vontade geralmente sentem vergonha, frustração, culpa, dentre outros sentimentos negativos advindos da “ressaca moral” de fazer algo que, em sua essência, elxs não queriam intimamente experimentar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Praticar o tantra é dissolver o ego e encontrar sua essência.

Quando estamos realmente nos liberando dessas amarras não temos esse tipo de sentimento. O Tantra propicia o auto-conhecimento. E quando você se conhece você pode controlar suas energias, porque nada que não é conhecido pode ser controlado. Aí sim você vai realmente ter consciência do que lhe é conveniente e o que não é para você. E poderá experimentar o que quiser , sempre com amor, compaixão e respeito por você e pelo seu corpo.

“Esse conhecimento milenar, que é uma pérola da humanidade, está à disposição para que a gente utilize. Mas isso pode ser usado para o amor ou para a luxúria e muitas das experiências que eu tive nesse caminho de aprendizagem é como a luxúria se apropria de coisas bacanas. Com isso, muitas vezes repetimos padrões do sistema distorcido e patriarcal: dominação, egocentrismo, submissão da mulher e autoritarismo do homem. O que eu venho trazendo é uma visão mais crítica desse caminho, da auto-observação.” (Teo Balieiro)

Para finalizar, Tantra não é sobre sexo. É sobre consciência. Consciência da sua vida, de seus sentimentos, emoções e do seu corpo. Dentro desse bolo todo a sexualidade é uma energia forte que está naturalmente inclusa. E que quando conhecida e controlada, pode te levar a estados de amor, prazer e empoderamento e consciência elevadíssimos.

Tantra não é religião

O segundo assunto que mais me perguntam (depois da relação do Tantra com o sexo) é o “confrontar” com outras religiões. Ou de ser uma coisa “do demônio” principalmente pela visão equivocada de um Tantra hipersexualizado e libertino.

Apesar de algumas vertentes tântricas idolatrarem deuses hindus a filosofia em si os trata como uma força divina está dentro de você. Ou seja, a figura de Shiva como o criador do universo e a força passiva que cria e conecta tudo e todos e a figura de Shakti como a manifestação física e ativa desse todo podem ser interpretadas como as forças masculinas e femininas presentes dentro da gente. Seria como o nosso inconsciente, que registra nossas experiências e que se manifesta indiretamente através de nossas ações, bloqueios, valores e sentimentos.

O Tantra não tem restrições e pode ser seguido por fiéis de qualquer religião.

No íntimo, é uma escola que facilita a busca pelo autoconhecimento e o amadurecimento saudável, propõe transformações dos nossos limites, o aquietamento da mente e dos desejos do ego e a procura pelo reconhecimento de nossa iluminação, que já existe e está dentro de nós.

Ela não exclui qualquer mandamento ou código de conduta, o Tantra se adequa a cada uma delas.

Existem correntes que inclusive pregam o celibato (chamada de Tantra Branco ou caminho da mão direita), outras correntes pregam que a conexão sexual seja feita com o amor e entre pessoas que tenham a mesma vibração energética e uma intimidade profunda (chamado de caminho do meio). E também o caminho da esquerda, ou Tantra negro. Que fala que quanto menos intimidade e menos conhecermos nossos parceiros melhor para alcançarmos a iluminação.

Há outras especificidades dessas 3 escolas. Mas vou dedicar um post somente para isso.

O Tantra usa técnica e símbolos que facilmente se mesclam a outras religiões.

Enfim, o Tantra apresenta uma infinidade de crenças e técnicas e todas tem um mesmo objetivo e usam as mesmas ferramentas para atingi-lo: Mantras (sons de poder), yantras e mandalas (diagramas sagrados para meditação), chakras (centros de força vital), práticas de iniciação e purificação e um sistema ético que une e protege o grupo de praticantes.

Essas técnicas, ferramentas e práticas em nada excluem ou vão de oposição a qualquer manifestação de fé, inclusive podem se mesclar a elas. Por exemplo, em todas as religiões temos mantras, técnicas de meditação e mandalas próprias (como “Aleluia” e “Amém”, a oração e o sinal da cruz na tradição cristã). 

“O tantrismo é uma busca experimental que visa eliminar o sentido ilusório e conflitual de ser um ego. Separado, a fim de nos conduzir à consciência de nossa verdadeira realidade, que é eterna as nossas energias físicas, sexuais e mentais, ensinando-nos a ver caráter sagrado em toda a vida.
O Tantra é ciência pura. Você pode transformar a si mesmo, e essa transformação precisa de uma metodologia científica. As centenas de técnicas tântricas constituem a ciência da transformação.
O Tantra diz que não se pode mudar um homem, a menos que se dê a ele técnicas autênticas para mudar. Apenas pela pregação nada é alterado.
Tantra é o grande ensinamento. Pequenos ensinamentos dizem a você o que fazer e o que não fazer. Eles lhe dão os “10 Mandamentos”. Um grande ensinamento não lhe dá mandamento. Ele não cuida do que você faz. Ele cuida do que você é, do seu centro. Da sua consciência.
O Tantra diz para aceitar o que você é. Você é um grande mistério de energia multidimensional; aceite isso e mova-se com toda a energia, com profunda sensibilidade, atenção, amor e compreensão. Mova-se assim e então cada desejo torna-se uma ajuda para usa iluminação, então este próprio mundo é Nirvana, este próprio corpo é templo – Um Templo Sagrado.” (Osho)

Tantra é um estilo de ser

“A palavra Tantra tem uma definição profunda. Tan significa expansão, crescimento, cordão (tantu) e Tra é interpretado como alavanca ou ferramenta. Enfim, é uma ferramenta para expansão. Também pode ser descrito como tecer tecido, tecer a própria vida, expandir a consciência. E para isso o Tantra utiliza todos os corpos ou elementos do ser: corpo, mente, emoções, sexualidade, sombras, consciência, etc…” (Otávio Leal em seu livro “Tantra – Da sexualidade a iluminação”)

Ao contrário do que parece, viver o caminho do Tantra não é fácil. Somos criados para negar nosso corpo, para condenar nossos prazeres e a reprimir nossas emoções e vontades. Praticar o Tantra exige encarar suas sombras e aceitá-las, exige abrir mão do seu ego e se mostrar vulnerável. Exige estudo, dedicação, tempo e disciplina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conhecer a si mesmo perante todas as possibilidades exige muito estudo, dedicação, tempo e disciplina.

O ápice do Tantra é o reconhecer a Si mesmo, utilizando o mundo material e o corpo físico para esse reconhecimento. Nada é negado. Tudo pode ser um trampolim para a plenitude. Mas de nada adianta aproveitar todos os estímulos externos se não olhamos para quem somos.

A perseguição do tantrismo

O tantrismo foi historicamente muito perseguido e condenado, e ainda o é, pelo seu modo naturalista de ver as coisas. Ele foi perseguido na Índia primeiramente por não reconhecer o sistema de castas, por acreditar que o caminho da espiritualidade e do auto-conhecimento é para todos.

E também foi condenada pela sua visão para com a figura da mulher.

As outras filosofias e religiões dizem basicamente: “O Espírito é a Bem-Aventurança e o Homem é igual ao espírito. A Natureza (mundo material e fenomênico) é o sofrimento. E a Mulher é igual a Natureza.”

Para o Tantra a Mulher continua sendo associada a Mãe Natureza. Mas nesse caso a Natureza não é uma ilusão e nem um lugar pecaminoso onde você precisa conquistar a salvação para adentrar em um mundo espiritual superior. Muito pelo contrário, a Natureza é uma manifestação perfeita do Divino, assim o convívio e a associação com as mulheres sempre foram muito bem vistas, pois elas representam a Natureza Universal personificada.

O modo de vida do Tantra não busca o “Porque” e sim o “Como”.

Em vez de se preocupar com o motivo do sofrimento, se busca uma maneira de ser feliz, uma filosofia comportamental que estimula a descobrir quem você é e como ser pleno, maduro, liberto do ego, livre, energético e, dentro do possível, autossuficiente. Ele sacraliza tudo na existência: pessoas, animais, natureza, dança, música, alimentos, ciclos naturais, coisas simples do cotidiano e também o sexo, que tem como base o amor, a vitalidade e o compartilhamento.

O Tantra não é voltado só ao prazer comum, orgástico. É um caminho árduo de auto-conhecimento. Através de métodos práticos e técnicos, como posturas físicas (ásanas e yoga), respirações, concentrações, cuidados com a alimentação, e um universo de técnicas que se utiliza na vida como um todo de forma plena e libertária, o Tantra busca o reconhecimento da essência e do espírito.

 

Fontes:

Livro “Tantra – Da sexualidade a Iluminação” de Otávio Leal (Dyhan Prem)

“How the ancient Indian tradition of Tantra became all about sex and orgasms in the US “

“On Sacred Sex”

“O Tantra”

“O Tantra: Um Ilustre desconhecido”

“Tantra não é bem o que você está pensando — e tem tudo a ver com inovação”